sábado, 16 de maio de 2026

A navegação fluvial por nossa região

      A navegação fluvial foi, durante décadas, um dos principais motores do desenvolvimento econômico e da ocupação territorial do Planalto Norte Catarinense e do Sul do Paraná. Em um período em que as estradas eram precárias e a ferrovia ainda inexistente ou insuficiente para atender às demandas regionais, os rios Iguaçu, Negro e seus afluentes transformaram-se em verdadeiras vias naturais de circulação de pessoas, mercadorias e ideias. Entre esses afluentes, o rio Canoinhas desempenhou papel estratégico para a economia regional, especialmente para Canoinhas e Três Barras, servindo como elo entre os ervais do interior e os grandes centros comerciais da época. A utilização dos rios como caminho de transporte não surgiu de forma repentina. Desde o século XVIII, expedições militares, científicas e exploratórias passaram a percorrer a bacia do rio Iguaçu, buscando conhecer o território, estabelecer rotas e consolidar a presença do Estado na região. Mais tarde, já no século XIX, estudos realizados pelos engenheiros José e Francisco Keller comprovaram tecnicamente a viabilidade da navegação a vapor no rio Iguaçu, sobretudo entre Porto Amazonas e União da Vitória. Essas análises abriram caminho para o surgimento da navegação comercial organizada, que se consolidaria a partir da década de 1880. Foi nesse contexto que os barcos a vapor passaram a integrar a paisagem regional. Os vapores percorriam o rio Iguaçu e o rio Negro, alcançando diversos afluentes navegáveis, entre eles o rio Canoinhas. A hidrovia abrangia uma extensa rede fluvial que conectava localidades como Porto Amazonas, São Mateus do Sul, União da Vitória, Porto União, Rio Negro, Mafra, Canoinhas e Três Barras. No caso canoinhense, o rio Canoinhas transformou-se em importante corredor logístico, integrando-se ao sistema econômico da erva-mate e da madeira. O funcionamento da navegação fluvial exigia uma complexa estrutura operacional. Ao longo dos rios existiam portos de embarque e desembarque, depósitos de mercadorias, armazéns, ranchos de apoio e os chamados “portos de lenha”, fundamentais para abastecer os vapores. Como as embarcações utilizavam lenha como combustível, era necessário manter diversos pontos de reabastecimento distribuídos ao longo do percurso. Trabalhadores especializados atuavam no carregamento das embarcações, na extração e corte de lenha, na manutenção dos barcos e nas operações portuárias. Canoeiros, remadores, maquinistas, pilotos e estivadores integravam o cotidiano ribeirinho. Em Canoinhas, localidades como o Porto de Canoinhas — situado na região central da cidade —, o Porto do Salseiro e Marcílio Dias tornaram-se diretamente ligados à dinâmica fluvial. Vapores atracavam nesses locais transportando principalmente sacas de erva-mate, além de madeira serrada e outros produtos regionais. Registros históricos demonstram que o Porto de Canoinhas e o Porto do Salseiro já eram localidades reconhecidas e habitadas nas primeiras décadas do século XX, evidenciando a relevância econômica desses pontos de embarque. Inclusive, uma das primeiras fotografias conhecidas de Canoinhas guarda relação direta com a navegação fluvial. A imagem retrata embarcações atracadas no antigo Porto de Canoinhas, às margens do rio Canoinhas, nas proximidades de onde atualmente se localiza a ponte que liga o Centro da cidade ao distrito de São Cristóvão. O registro evidencia a relevância do porto para a dinâmica econômica e social da época, demonstrando como o rio integrava o cotidiano regional e funcionava como importante eixo de circulação de mercadorias e pessoas. Mais do que um simples detalhe iconográfico, a fotografia simboliza o papel central desempenhado pela navegação fluvial no processo de formação e desenvolvimento de Canoinhas. A erva-mate era o principal produto transportado pela hidrovia. Extraída dos ervais nativos do Planalto Norte Catarinense e do Sul do Paraná, ela seguia pelos rios até centros comerciais e exportadores. A navegação reduzia custos, acelerava o transporte e permitia o escoamento de grandes volumes de produção. Paralelamente, a madeira também ganhou importância crescente, sobretudo com a expansão das serrarias e da exploração florestal na região de Três Barras e arredores. Os rios funcionavam como canais naturais para o transporte de toras e produtos industrializados oriundos da atividade madeireira. A presença da navegação fluvial impactou profundamente diversas localidades ribeirinhas que atualmente pertencem ao município de Canoinhas. Regiões como Taunay, Paula Pereira, Estação Paciência, Santa Leocádia, Felipe Schmidt e Campo das Moças mantinham relação direta com os rios e com o fluxo econômico proporcionado pelos vapores. Nessas localidades surgiram pontos de comércio, áreas de apoio às embarcações, pequenas comunidades de trabalhadores e estruturas voltadas ao transporte da produção regional. Em muitos casos, o próprio processo de ocupação humana ocorreu acompanhando as margens navegáveis. O distrito de Marcílio Dias também foi diretamente beneficiado por essa dinâmica. Situado em posição estratégica às margens do rio Canoinhas, o local passou a integrar a rota de circulação de mercadorias e pessoas. A proximidade com os portos favoreceu o surgimento de atividades comerciais, ampliou a circulação econômica e fortaleceu sua integração com Canoinhas e Três Barras. Em uma época em que os rios representavam os caminhos mais rápidos e eficientes da região, estar próximo da hidrovia significava participar do circuito econômico regional. Além do impacto econômico, a navegação fluvial contribuiu para a própria formação regional. Os rios aproximaram comunidades, estimularam o surgimento de povoados e favoreceram a integração entre áreas até então isoladas. A hidrovia do Iguaçu consolidou-se como elemento fundamental do chamado “complexo ervateiro”, articulando a produção do interior com os mercados consumidores e exportadores. Com o avanço da ferrovia e, posteriormente, das rodovias, a navegação fluvial entrou em decadência ao longo do século XX. Ainda assim, sua importância histórica permanece profundamente ligada à formação econômica e territorial de Canoinhas, Três Barras e de todo o Vale do Iguaçu. Muito mais do que simples vias de transporte, os rios foram agentes ativos do desenvolvimento regional, impulsionando a economia, favorecendo a ocupação do território e conectando comunidades que cresceram acompanhando o curso das águas. 

 Referências 
 BACH, Arnoldo Monteiro. Vapores. Ponta Grossa: Editora UEPG, 2006. GOULARTI FILHO, Alcides; DE MORAES, Fábio Farias. A construção dos caminhos da erva-mate em Santa Catarina: combinação e sobreposição de transportes. Dimensões, Vitória, n. 31, p. 159-182, 2013. GUDAS, Diego; ALVES, Jorge Amaro Bastos. A navegação fluvial na bacia do Iguaçu e o desenvolvimento regional: o papel histórico do rio Canoinhas na economia da erva-mate. In: JORNADA DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA DA EMBRAPA FLORESTAS, 19., 2025, Colombo. Anais [...]. Colombo: Embrapa Florestas , 2025. Disponível em: Infoteca-e Embrapa . Acesso em: 16 maio 2026. GUDAS, Diego; DALCOMUNI, Hilda Jocele Digner; ALVES, Jorge Amaro Bastos. A navegação fluvial e a Guerra do Contestado: vapores, território e desenvolvimento regional no Sul do Paraná e Planalto Norte Catarinense. Revista Húmus, São Luís, v. 15, n. 45, 2025. Disponível em: Revista Húmus . Acesso em: 16 maio 2026. GUDAS, Diego; MARCHESAN, Jairo; ALVES, Jorge Amaro Bastos. Navegação e ocupação territorial: o rio Iguaçu na formação econômica regional do Planalto Norte Catarinense e Sul do Paraná. Desenvolvimento em Questão, Ijuí, v. 23, n. 62, e16152, 2025. Disponível em: Revista Desenvolvimento em Questão . Acesso em: 16 maio 2026. MAFRA, Antônio Dias. Aconteceu nos ervais: a disputa territorial entre Paraná e Santa Catarina pela exploração da erva-mate – região sul do vale do rio Negro. Canoinhas: Universidade do Contestado, 2008. RIESEMBERG, Alvir. A instalação humana no vale do Iguaçu. União da Vitória: Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de União da Vitória, 1973. WACHOWICZ, Ruy Christovam. Paraná: a comunicação histórica do mar-oceano ao rio-mar. Revista Paranaense de Desenvolvimento, Curitiba, n. 83, p. 85-97, 1994.

Texto de Diego Gudas


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